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O que faz uma moeda se tornar tão poderosa a ponto de influenciar o destino de países inteiros? E por que, nas últimas décadas, o dólar americano se transformou no eixo central da economia mundial?

Hoje, quase tudo o que compramos, vendemos ou negociamos passa por ele.

O preço do petróleo, o financiamento de grandes empresas, a compra de eletrônicos importados ou até mesmo a reserva de um hotel no exterior: em todos esses casos, o dólar está presente.

Mas, ao mesmo tempo em que domina, o dólar também desperta resistência.

Cresce um movimento de países que buscam alternativas para escapar da dependência. Entre eles, está o grupo conhecido como BRICS - formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul.

Esses países discutem maneiras de reduzir a força da moeda americana.

 E em algumas propostas, falam até em criar uma nova moeda capaz de desafiar essa hegemonia.

A questão que fica é: será que o século XXI assistirá a uma mudança no centro do poder econômico global?



Para entender essa história, precisamos voltar a 1944. O mundo ainda estava em guerra, mas representantes de 44 países se reuniram em Bretton Woods, nos Estados Unidos, para redesenhar a economia global.

Dali nasceram instituições que conhecemos até hoje, como o Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial.

 Mas a principal decisão foi outra: escolher uma moeda para servir como referência internacional.

Naquele momento, a economia americana era a mais forte do planeta.

 Os Estados Unidos detinham cerca de dois terços de todo o ouro mundial.

 Por isso, ficou definido que o dólar seria a moeda central, lastreada em ouro.

Esse arranjo ficou conhecido como Sistema de Bretton Woods, e vigorou até o início da década de 1970.

 Durante esse período, praticamente todas as transações internacionais tinham o dólar como base.

Mas em 1971, o presidente Richard Nixon anunciou o fim da conversão direta do dólar em ouro.

 Era o fim do padrão-ouro.

Ainda assim, a moeda americana não perdeu força.

 Pelo contrário: ganhou ainda mais espaço, sustentada pela confiança na economia dos Estados Unidos e, principalmente, pelo petróleo.

Poucos anos depois, Washington firmou acordos com grandes produtores do Oriente Médio, como a Arábia Saudita.

 A partir dali, o comércio de petróleo passou a ser feito exclusivamente em dólares.

 Nascia o chamado petrodólar.

Esse movimento consolidou a moeda americana não apenas como reserva de valor, mas como peça central em um dos mercados mais vitais do planeta: a energia.

Sete décadas depois, o dólar continua sendo a espinha dorsal da economia global.Segundo o Fundo Monetário Internacional, mais de 58% das reservas internacionais dos bancos centrais estão nessa moeda.

 E nos mercados de câmbio, a presença é ainda maior: cerca de 88% de todas as transações globais envolvem o dólar de alguma forma.

Nenhuma outra moeda chega perto.

 O euro participa de pouco mais de 20%.

 O yuan chinês, apesar do tamanho da China, ainda representa menos de 5%.

Esse domínio garante aos Estados Unidos vantagens únicas.

 O país pode financiar sua dívida em condições muito mais favoráveis, já que o mundo inteiro precisa de dólares.

Além disso, a moeda se tornou uma arma geopolítica.

 Com ela, os EUA aplicam sanções econômicas com um alcance quase sem precedentes.

Foi o que vimos no caso do Irã, nos anos 2010, quando o país foi praticamente isolado do comércio global.

 E mais recentemente, em 2022, com a Rússia, que teve parte de suas reservas internacionais congeladas e vários de seus bancos desconectados do sistema SWIFT.

Na prática, o dólar deixou de ser apenas uma moeda.

 Ele se transformou em um instrumento de poder, capaz de influenciar diretamente a política e a economia de outras nações.

Mas toda hegemonia tem efeitos colaterais. Quanto mais o dólar domina, mais países se sentem desconfortáveis.

Um exemplo histórico é a crise da dívida na América Latina nos anos 1980.

 Quando os juros americanos dispararam sob comando do Federal Reserve, países fortemente endividados em dólar, como Brasil, México e Argentina, entraram em colapso financeiro.

Outro caso foi a crise asiática de 1997.

 A fuga de capitais, também atrelada ao dólar, provocou uma onda de desvalorizações que atingiu economias como Tailândia, Indonésia e Coreia do Sul.

E há ainda o fator das sanções.

 Quando a Rússia foi punida pela invasão da Ucrânia, em 2022, parte de seus bancos foi excluída do sistema SWIFT.

 Para muitos governos, especialmente fora do eixo ocidental, esse episódio mostrou a vulnerabilidade de depender do dólar.

Por isso, começaram a surgir alternativas.

 A Índia criou um mecanismo para liquidar parte do comércio exterior em rupias.

 O Brasil instalou um banco de compensação em yuan, facilitando operações diretas com a China.

 E a Rússia, pressionada pelas sanções, acelerou o uso do yuan tanto em transações externas quanto no próprio mercado interno.

Nada disso significa o fim imediato da primazia do dólar.

 Mas ajuda a explicar por que cresce o interesse em diversificação: menos vulnerabilidade, mais previsibilidade e maior autonomia em tempos de crise.

É nesse contexto que entram os BRICS. O debate dentro do bloco não é, ao menos por enquanto, sobre criar uma moeda única.

 O foco está em construir etapas graduais.

Desde 2023, líderes dos BRICS incentivam que mais operações comerciais ocorram em moedas locais.

 E em 2025, sob a presidência do Brasil, foi acolhido um relatório técnico para desenvolver um sistema de pagamentos transfronteiriços.

O objetivo é simples, mas ambicioso: permitir que um exportador brasileiro receba em reais ao vender para a Índia, ou que um fornecedor africano seja pago em sua moeda local ao negociar com a China.

Além disso, o Novo Banco de Desenvolvimento, conhecido como banco dos BRICS, vem ampliando operações em moedas locais.

 Já emitiu títulos em rand e yuan, e empresta nessas moedas para projetos de infraestrutura.

Na prática, vemos movimentos graduais: compensação em yuan no Brasil, liquidação em rupia na Índia e maior interoperabilidade entre sistemas nacionais.

Isso não substitui o dólar de imediato, mas cria redundâncias e dá ao bloco maior margem de manobra em momentos de instabilidade global.

Importante frisar: líderes de países-chave já afirmaram que uma moeda única não está na agenda imediata.

 O foco, por enquanto, é expandir o uso de moedas nacionais e melhorar os mecanismos de pagamento.


Ainda assim, os desafios são enormes.O primeiro é de confiança e governança.

 China e Índia, apesar de avanços, continuam marcadas por disputas de fronteira e rivalidade estratégica.

O segundo é financeiro.

 Para que uma moeda seja usada globalmente, ela precisa de convertibilidade plena e mercados de capitais abertos.

 A China ainda mantém controles rígidos.

 A Índia só permite convertibilidade parcial - e chegou até a endurecer regras de remessas em 2025.

O terceiro desafio é infraestrutural.

 O sistema chinês CIPS, que processa pagamentos em yuan, cresce rápido e já movimenta trilhões ao ano.

 Mas ainda é pequeno frente aos trilhos do dólar:

 o CHIPS, em Nova York, liquida quase dois trilhões de dólares por dia.

 E o SWIFT conecta mais de 11.500 instituições em mais de 200 países.

Há também a assimetria econômica dentro do bloco.

 A China tem superávit com vários parceiros, enquanto a Índia acumula déficit recorde com os chineses.

 Uma moeda comum em contextos assim pode gerar tensões sobre quem financia quem.

A experiência da zona do euro é um alerta.

 Foram necessários mais de 40 anos - do Tratado de Roma, em 1957, até a introdução do euro, em 1999 - para consolidar a moeda comum.

 E mesmo assim, crises como a da Grécia mostraram a fragilidade do sistema.

Transpor isso para países com estruturas tão diferentes quanto os do BRICS é um projeto


Depois de percorrer essa trajetória, fica claro que o dólar não conquistou sua posição por acaso. Foi a soma de fatores históricos, como Bretton Woods, a confiança na economia americana e o acordo do petrodólar, que transformaram o dólar em referência mundial.

Mas essa mesma força gera desconforto.

 Para muitos países, depender do dólar significa estar exposto a sanções, crises cambiais e decisões de política monetária externas.

É nesse cenário que os BRICS surgem com alternativas.

 Ainda não se trata de uma ruptura imediata, mas sim de redes paralelas que podem, aos poucos, reduzir a vulnerabilidade ao dólar.

A história ensina que nenhuma hegemonia dura para sempre.

 Se o século XX teve o dólar como símbolo de poder econômico, a grande questão é:

 Será que o século XXI verá surgir uma moeda capaz de dividir ou até substituir essa posição?

 Ou estaremos diante de um mundo multipolar, em que várias moedas coexistem sem que nenhuma domine totalmente?

Essa resposta ainda está em aberto.

 Mas uma coisa é certa: a disputa pela moeda de referência global é, em última instância, uma disputa por poder no sistema internacional.

É um texto para um vídeo do youtube documental sobre o assunto




29/12/2025 00:42:13: Pedido realizado - Aguardando pagamento (Locutor: WAGNER ARAUJO)